Entrevista com Ex-Petiana na Alemanha.

 

Muitas pessoas sonham em fazer um intercâmbio no exterior e conhecer novas experiências. A vivência de uma cultura estrangeira proporciona muito aprendizado, além de ser uma oportunidade única de laser. Para um jovem, o intercâmbio pode ser ainda mais enriquecedor, levando-o a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva, e desse modo, ter um pensamento diferenciado. Não é em vão que o mercado de trabalho é cada vez mais exigente a respeito do domínio de um idioma estrangeiro. Atualmente, estudar ou estagiar faz toda a diferença na construção de uma carreira de sucesso.

Amanda Coqueiro, de 23 anos, é discente do curso de engenharia ambiental no IFBA – Campus Vitória da Conquista e ex-petiana do grupo PET Engenharias. Em 2019, ela ingressou em um programa de intercâmbio na Alemanha e por meio dessa entrevista, veio compartilhar um pouco da sua experiência.

  1. Por que você escolheu fazer intercâmbio na Alemanha?

“Quando eu ainda estava fazendo o curso de inglês, pensava qual outra língua poderia aprender. Nessa época, fui voluntária por dois anos da ONG AFS Intercultura Brasil, onde pude conhecer pessoas de diferentes países e culturas. Essa experiência me motivou mais ainda no sonho que já tinha de fazer um intercâmbio. No final do ano de 2015, vi a chamada para intercâmbio de trabalho voluntário na Alemanha pelo AFS, porém, adivinha: Não sabia nada de alemão. A inscrição era até janeiro e para isso seria necessário um certificado de proficiência na língua. Decidi que tentaria estudar sozinha, porém vendo que não era possível com tanto pouco tempo, encontrei uma professora de alemão na cidade, que colocou meus pés no chão e disse que para o nível exigido poderia demorar um ou mais anos de estudo. A partir dali surgiu em mim um enorme interesse pela língua, a qual tinha/tenho prazer em estudar, mesmo que não conseguisse realizar um intercâmbio tão cedo. Pelo contrário, tive mais tempo para concluir praticamente a faculdade, me tornar uma pessoa mais madura e ter mais condições financeiras. Nesse tempo participei de váaarias seleções para bolsas (para diversos países) que via na internet ou na faculdade e acabei me frustando com tantos “nãos”. No final do ano passado vi que de novo haviam sido abertas as inscrições para o mesmo programa que tinha visto em 2015, o Welwärts. Não tinha certeza se daria certo, mas uma coisa eu já tinha: o basicão do alemão.”

  1. Como foi o processo de organização do seu intercâmbio?

“A primeira parte do processo seletivo consistiu em preencher um formulário em que tive que falar um pouco sobre mim e enviar também uma carta de recomendação em alemão, um certificado de um curso de alemão ou de proficiência na língua, um relatório médico sobre minha saúde e determinar as minhas preferências de projeto para trabalhar, dentre as existentes, como saúde, trabalhar com idosos, crianças, ou jovens e etc. Não é necessário experiência na área, porém alguma experiência voluntária é um diferencial. Depois que passei nessa primeira etapa (a seleção foi a nível Brasil), participei de uma entrevista em alemão/inglês via Skype. Posteriormente foi divulgada a lista final dos 5 selecionados para a bolsa parcial. Dessa forma, tive que pagar uma taxa e os procedimentos com passaporte e visto. A bolsa incluiu passagens aéreas, acomodação, café da manhã e almoço do trabalho. seguro saúde, seguro social, transporte na cidade, férias, um curso de alemão e seminários do AFS no primeiro mês do intercâmbio, ajuda de custo mensal, além do suporte do AFS. Posteriormente, tive que esperar alguns documentos da Alemanha, necessários para o visto e para minha participação no programa. Quando finalmente chegaram, fiz o meu visto em Recife e algumas semanas depois já estava viajando para a Alemanha.”

  1. Como é viver aí? O custo de vida é muito alto na cidade/país em que está?

“O modo de vida daqui é bem diferente do que estou acostumada no Brasil: transporte, alimentação, vestuário etc. A cidade tem um sistema bem integrado de ônibus, metrôs e barcos (no porto), o que facilita bastante ir de um lugar a outro, mesmo que distante. Outra coisa: Uber/táxi é muito caro! Nunca utilizei aqui. Em relação a alimentação, sinto falta do arroz com feijão com bife (risadas). Como trabalho em uma creche, e a comida é terceirizada, o cardápio é bem variado: as vezes macarrão com molho, peixe ou alguma carne, com arroz, por exemplo, e salada. Uma coisa é fato: estou comendo muito mais verduras e frutas aqui do que de costume. Não posso deixar de falar também dos pratos vendidos aqui, como currywust (salsicha com molho de Curry), Döner e Falafel (de origem turca). Hamburg tem um custo de vida mais alto que de outras cidades da Alemanha, como Berlim por exemplo. No entanto, nos mercados grandes daqui há uma diversidade muito grande de produtos e faixas de preços, o qual possibilita uma feira conforme o bolso de cada um. Acredito que na Alemanha em geral, é muito acessível adquirir produtos veganos, sem glúten ou com alguma outra restrição, tanto em alimentos como produtos de beleza por exemplo.”

  1. O que você mais gosta da cidade/país que está?

“Uma das coisas que mais gosto daqui (me perdoem ser tão direta) é que cada um cuida de sua vida (risadas). Não importa a roupa que você está vestindo ou se você tem ideias diferentes (me parece que ser autêntico é bem normal aqui), geralmente as pessoas não te encaram ou te julgam. Normalmente as pessoas não olham muito pro rosto das outras em espaços públicos, isso pode ser bom ou ruim, depende como se interpreta, haha.”

Gosto bastante da quantidade de vegetação que a cidade tem. Não há nenhum lugar que não seja possível ver pelo menos um pouco de verde, isso me impressionou bastante. O porto de Hamburg também é lindo e digno de um passeio de barco.

Outro ponto, não menos importante é a segurança. É muito tranquilo andar mais tarde da noite na rua, mesmo que algumas ruas sejam pouco iluminadas. (Pelo menos, essa é a minha experiência)”

  1. Teve alguma diferença cultural entre o Brasil e a Alemanha que te deixou surpresa?

“Nos metrôs não há alguém fiscalizando quem tem ticket ou não. Isso ocorre, mas somente as vezes, e de surpresa. Então de certa forma, é muito fácil burlar e não comprar o ticket, porém a multa pra quem faz isso é caríssima. De todo modo, a maioria das pessoas compram o ticket, mesmo que não seja cobrado depois.

Em muitos lugares também se segue a “lei” de sempre andar a direita, seja na rua, na escada normal ou na rolante.

Fiquei muito surpresa também como que o trânsito aqui funciona bem. Claro que há muitas zonas de intenso tráfego e engarrafamento. Mas digo no sentido de que, pedestres, ciclistas, motoristas respeitam as leis de trânsito.
No entanto, é incrível também a quantidade de fumantes aqui. Nesse sentido, sinto que o Brasil está mais evoluindo, havendo espaços para fumantes nos restaurantes, por exemplo, o que é muito raro de encontrar aqui. Ou os estabelecimentos não aceitam fumantes, ou aceitam, mas não há área para não fumantes, que em geral é a minoria.

A cultura da bicicleta é muito forte aqui. Creio que isso ocorre por ser um meio mais saudável de transporte, mas também e principalmente, porque para se ter um carro aqui é caro: manutenção, impostos e etc. Fico encantada com a variedade de carrinhos anexados a bicicleta e que possibilitam levar crianças também. Vejo muito isso no kindergarten (creche) que trabalho. A maioria das crianças maiores e jovens vão também à escola de bicicleta.

As comemorações de Natal começam bem cedo. Aqui se comemoram 1º, 2º, 3º e 4º adventos, ou seja, as 4 semanas antes do Natal. É muito tradicional nas casas e estabelecimentos, escolas, creches, terem um calendário no advento, no qual fazem a contagem regressiva contando a partir de 01 de dezembro até a véspera de Natal.”

 

  1. Você foi para outras cidades/países que não o que você está morando?

Já visitei as cidades alemãs de Schwerin, Hannover, Lübeck, Lüneburg, Bremen, Bad Oldesloe, Berlin, Stade, Drochtersen. Nas minhas férias de final do ano vou conhecer outros países, como a Espanha, Itália, Inglaterra, Portugal, França, Bélgica e Irlanda.

  1. Qual é a coisa mais difícil de fazer um intercâmbio?

“Acredito que a coisa mais difícil com certeza é sair da sua zona de conforto, ter que enfrentar uma rotina diferente, com pessoas diferentes e o pior, longe da família e amigos. Poderia citar também que a dificuldade em entender e ser entendido pelos outros na língua estrangeira, no princípio pode causar certo tipo de frustração.

8.  Como foi o processo de socialização no país que você está? 

“Como moro em uma residência estudantil (tenho meu quarto-apartamento individual), acabo conhecendo muitas pessoas, principalmente porque há uma cozinha no andar, que é compartilhada, então sempre acabo encontrando com alguém lá). Tenho amigos que estão no mesmo programa que eu e também ficaram em Hamburg ou cidades próximas. Para se fazer amigos de outra forma, acho bem mais difícil, só se você começar a participar de algum grupo externo. Eu por exemplo, estou indo a uma igreja aqui e fiz muitos amigos lá. Todo domingo nos encontramos nos cultos e fazemos alguma programação diferente na semana.”

9.  Tem alguma dica para futuros intercambistas?

“Minha dica é nunca comparar o seu tempo com o dos outros. Talvez não seja o momento certo de dar certo, mas se você focar no que você realmente quer, um dia, de um modo ou de outro, vai conseguir sim. Se for necessário colocar metas pra isso, estabelecer passos reais, que você sabe que vai conseguir realizar. Esse passo pode parecer bem pequeno, como por exemplo, entrar numa escola de línguas, mas ele está te direcionando ao seu objetivo. Uma oportunidade também pode ser hospedar algum intercambista em casa e quem sabe depois isso pode abrir outras portas. Há muitos processos seletivos para bolsas de intercâmbio na Internet, estão estar sendo antenado, se inscrever até naqueles que você não põe muita fé, pode te proporcionar o seu almejado intercâmbio. Se não, com certeza você aprendeu como fazer uma carta de recomendação melhor ou os requisitos que precisa pra conseguir uma específica bolsa. E uma das coisas mais importantes: saber que um intercâmbio não é um programa de férias, se envolve muita responsabilidade e estar imerso numa outra cultura é bem mais interessante, do que simplesmente diversão. Aproveitem a fase que estão vivendo agora, mas nunca se esqueçam de fazer planos, pois o tempo passa muito rápido. Qualquer coisa que eu puder ajudar, estou aqui!

Tschüss und bis nachher!” (Tchau e até mais!)

Autora: Marília Aguiar;

Revisão: Sérgio Andrade.